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Como vimos neste artigo, a educação básica no Brasil está em uma situação muito complicada. Os estudantes não aprendem o suficiente e os sistemas educacionais não estão conseguindo mudar essa triste realidade. Neste texto vamos entender como o baixo nível de aprendizado é afetado e contribui para a perpetuação da desigualdade social.

Pontos principais
Pais:
descobrir os fatores que influenciam o desenvolvimento das crianças para garantir que elas aprendam mesmo em ambientes menos favoráveis.
Gestores:
observar a composição das turmas e de onde vêm seus alunos para mapear o desenvolvimento delas e traçar estratégias mais efetivas.
Professores:
identificar o contexto onde a criança está inserida para trazer práticas mais significativas, aumentando o interesse dos alunos no aprendizado.

A educação básica no Brasil está em uma situação muito complicada. Os(as) estudantes não aprendem o suficiente, o que coloca o Brasil entre os piores desempenhos nas avaliações internacionais [1]. Além disso, a taxa de abandono é de 25%, a terceira maior no mundo, o que significa que milhões de estudantes abandonam nossas escolas todo ano reclamando de que a educação fornecida é desinteressante [2]. O baixo desempenho dos(as) alunos(as) nos primeiros anos da alfabetização é certamente um fator importante nesse contexto. De acordo com avaliações nacionais [3]:

● 66% dos(as) alunos(as) terminam o 9º ano sem aprender o mínimo necessário em português; e
● 85% dos(as) alunos(as) terminam o 9º ano sem aprender o mínimo esperado em matemática.

O problema se estende até o ensino superior, onde estimativas indicam que 50% dos(as) estudantes são analfabetos funcionais [4].

É nesse contexto em que se encontram os baixos níveis de alfabetização entre os(as) alunos(as) da educação infantil e dos anos iniciais do ensino fundamental no Brasil (primeiro ao terceiro ano). Diversos fatores podem contribuir para tal problema, e este artigo tenta identificar evidências que possam dar mais informações sobre o problema.

A abordagem sociológica pode ajudar a encontrar as relações sociais que afetam o desempenho dos estudantes. Diferentes variáveis foram analisadas para compreender a razão pela qual esse problema ocorre, como raça, gênero, status socioeconômico, histórico do(a) professor(a) e a região na qual o(a) aluno(a) mora.

A evolução da alfabetização no Brasil de acordo com os censos

Uma análise dos dados dos censos de 1872 a 2000 [5] mostra que:

  • Houve uma redução constante na taxa de analfabetismo de 1890 até 1950 (de 82,5% para 57,2% de analfabetos);
  • Uma diminuição mais rápida ocorreu entre 1950 e 1960 (chegando a 46,7%);
  • De 1970 a 2000, a redução da taxa de analfabetismo no Brasil foi mais lenta, mas conseguimos reduzir o percentual de analfabetos para 16,7% em 2000;
  • Em 2000, apenas 1/3 da população com mais de 15 anos concluiu o ensino fundamental.

A seguir, vamos discutir por que que esse percentual que parece ser pequeno na verdade não é um indicativo confiável sobre as habilidades de leitura e escrita dos brasileiros.

Gênero, raça e renda na Alfabetização

Os dados do censo de 1940 a 2000 também foram utilizados para identificar relações entre o aprendizado de leitura e escrita e questões de gênero e raça [6]. A análise dos censos nos mostra que:

  • O número de analfabetos na população diminui com o passar do tempo, sendo a queda entre as mulheres é muito mais rápida. Em 1991 as mulheres superam os homens em número de pessoas alfabetizadas;
  • Há uma diferença clara nas taxas de alfabetização entre grupos raciais diferentes;
  • Populações asiáticas e brancas aprenderam a ler e escrever muito mais rápido do que as negras e pardas.

Analisando em conjunto os dados do censo e das Pesquisas Nacionais de Amostra de Domicílios no período de 1990 a 2010 [7] é possível concluir que:

  • Levando em consideração gênero e raça, a desigualdade de aprendizagem começa cedo, aos sete anos de idade;
  • A desigualdade racial entre negros e brancos começa com uma diferença de 4% para estudantes de cinco anos de idade, crescendo rapidamente para 13% entre os de seis anos e 21% aos sete anos. Depois começa a diminuir, terminando em 3% para alunos de 14 anos.

No Censo de 2000 é possível perceber que essa desigualdade está diretamente relacionada à renda familiar: a taxa de analfabetismo nas famílias pobres (renda menor do que um salário mínimo) é vinte vezes maior do que nas famílias mais ricas (renda de mais de dez salários mínimos) [8].

Letramento e renda familiar

Os dados das pesquisas confirmam uma opinião que é a de diversos educadores: regiões carentes, alguns grupos raciais e famílias com renda mais baixa têm mais dificuldade para aprender a ler e escrever.

Por outro lado, eu avalio que esses estudos são falhos num ponto: eles usam dados do censo, que considera alfabetizados todos com mais de cinco anos de idade que saibam escrever um bilhete simples. Entram nessa conta quem já aprendeu a ler e escrever mas esqueceu, assim como quem só sabe escrever o próprio nome. Esse pensamento pode até servir para definir quem é alfabetizado, mas na sociedade atual não chega nem perto do que se espera que um letrado domine. Para entender a diferença entre alfabetizado e letrado, veja este texto.

Outro problema do censo é que suas informações são baseadas somente na opinião do membro da família que responde às perguntas. Não há testes reais. Alguém pode mentir para soar mais inteligente ou até mesmo errar ao julgar o que as outras pessoas da família podem fazer, por exemplo.

Parece que uma perspectiva sociológica pode ser muito mais válida se os estudos usarem dados de avaliações padronizadas. O problema é que os testes padronizados são recentes no Brasil e até agora só foram aplicados nos ensinos médio e superior.

Avaliações padronizadas

O Prova Brasil é um bom exemplo de avaliação padronizada. O teste foi aplicado pela primeira vez em 2005 com os alunos do quinto e nono ano. A gente pode até usar os dados do teste de quinta série para supor os níveis de alfabetização, mas não é um indicador preciso porque cobra conhecimentos além do que é esperado de alguém em processo de alfabetização.

A Avaliação Nacional da Alfabetização (ANA) é a ferramenta mais adequada para avaliar os problemas do aprendizado de leitura e escrita entre o primeiro e o terceiro ano – período oficial da alfabetização. Ele fornece uma pontuação que reflete as habilidades dos alunos, algo bem mais representativo do que a pergunta que o censo faz aos pais para contabilizar quem é alfabetizado.

Outro ponto interessante é que a ANA informa aspectos sociais e econômicos das famílias que são atendidas pelas escolas [9], como o nível de escolaridade dos pais, a renda e os bens que possuem. A ANA também inclui um índice que aponta o nível de escolaridade e a experiência de cada professor.

Com os dados da ANA, temos como cruzar diversas variáveis, incluindo o desempenho do aluno, sexo, raça, classe social, localização geográfica da escola, recursos escolares (dados retirados de censos educacionais) e formação do professor.

Infelizmente, de 2013 até agora apenas três edições da ana foram feitas. Se conseguirmos aplicar essa avaliação anualmente, certamente teremos mais chances de acompanhar a evolução dos estudantes e avaliar o impacto de novos projetos e/ou metodologias que sejam adotadas pelas escolas. Só assim seremos capazes de reduzir os baixos índices de alfabetização que existem no Brasil.

Referências

[1] OECD. (2012). Programme For International Student Assessment (PISA). Retrieved from http://www.oecd.org/education/PISA-2012-results-brazil.pdf

[2] Neri, M. (2009). Motivos da evasão escolar. Brasília: Fundação Getulio Vargas.

[3] Qedu. (2015). Aprendizado dos alunos: Brasil.Retrieved from http://goo.gl/R6BX3w

[4] Globo. (2012, November 26). DFTV 2ª Edição. Brasília, DF: Rede Globo. Retrieved from http://goo.gl/8n6ACD

[5] Ferraro, A. R. (2002). Analfabetismo e níveis de letramento no Brasil: o que dizem os censos. Educação & Sociedade, 23(81), 21-47.

[6] Beltrão, K. I. (2003). Alfabetização por sexo e raça no Brasil: um modelo linear generalizado para explicar a evolução no período 1940-2000. Retrieved from http://hdl.handle.net/11058/2691

[7] Ferraro, A. R. (2011). A trajetória das taxas de alfabetização no Brasil nas décadas de 1990 e 2000. Educação & sociedade. 32(117). 989-1013.

[8] Pinto, J. M., Oliveira, L. L. N., Brant, C. E. M. S., & Pascom, A. R. P. (2000). Um olhar sobre os indicadores de analfabetismo no Brasil. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, 81(199).

[9] Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. (2013). Nota Explicativa da Avaliação Nacional da Alfabetização. Retrieved from http://goo.gl/E4NTq5