Turmas homogêneas ou heterogêneas: qual funciona melhor para os alunos com dificuldade?
Uma das discussões mais presentes nas escolas brasileiras é sobre como organizar as turmas: devemos misturar alunos com diferentes níveis de aprendizagem ou agrupá-los por desempenho semelhante? Muitos defendem que a diversidade na sala de aula beneficia todos os estudantes, mas será que isso é verdade para todas as crianças?
Um estudo experimental recente trouxe dados importantes que podem ajudar gestores escolares e professores a tomarem decisões mais embasadas sobre essa questão tão importante para o dia a dia da escola.
O que a pesquisa descobriu sobre agrupamento de alunos?
O estudo foi realizado com estudantes que tinham o inglês como segundo idioma e testou duas formas diferentes de organizar as turmas:
- Turmas heterogêneas: Alunos com alta proficiência em inglês misturados com alunos com baixa proficiência
- Turmas homogêneas: Alunos agrupados por nível semelhante de conhecimento em inglês
Os resultados foram surpreendentes e mostram que não existe uma solução única que funcione para todos os alunos.
Resultados diferentes para grupos diferentes
A pesquisa revelou um padrão claro e importante:
Nas turmas heterogêneas (misturadas):
- Os alunos que já tinham bom desempenho aprenderam mais
- Os alunos com dificuldades tiveram menor progresso
Nas turmas homogêneas (agrupadas por nível):
- Os alunos com menor proficiência aprenderam mais do que nas turmas mistas
- O progresso foi mais consistente para o grupo com dificuldades
Por que turmas homogêneas ajudam alunos com dificuldade?
Existem razões práticas e pedagógicas que explicam esses resultados:
- Facilita o planejamento das aulas: Quando a turma tem níveis semelhantes, a professora consegue preparar atividades mais adequadas para todos
- Melhora a execução das aulas: O dia a dia fica mais fluido quando não é preciso atender a extremos muito diferentes de conhecimento
- Permite trajetória mais clara: É possível estabelecer objetivos de aprendizagem mais precisos quando a turma está em um patamar semelhante
- Aumenta a eficiência do ensino: A professora consegue focar nos conteúdos e estratégias que realmente fazem diferença para aquele grupo específico
O que isso significa para sua escola?
Esta pesquisa traz uma reflexão importante para gestores escolares e secretários de educação: nem sempre as ideias que parecem mais inclusivas ou bonitas na teoria geram os melhores resultados na prática.
A inclusão e a diversidade são valores fundamentais na educação, mas precisam ser implementadas com base em evidências científicas sobre o que realmente funciona para diferentes grupos de alunos.
A importância das práticas baseadas em evidências
Este estudo reforça um princípio fundamental para a gestão escolar moderna: devemos testar as ideias e avaliar seus resultados reais antes de implementá-las em larga escala.
Práticas baseadas em evidências significam:
- Buscar pesquisas científicas sobre estratégias pedagógicas
- Testar abordagens diferentes e comparar resultados
- Avaliar continuamente o progresso dos alunos
- Estar disposto a mudar estratégias quando os dados mostrarem que algo não está funcionando
- Priorizar o que realmente ajuda os alunos a aprenderem mais, especialmente aqueles com dificuldades
Aplicações práticas para sua escola
Com base nesses achados, gestores escolares podem considerar:
- Avaliar a organização atual das turmas: Como os alunos estão sendo agrupados atualmente? Há dados sobre o progresso de diferentes grupos?
- Considerar agrupamentos flexíveis: Para alunos com mais dificuldade, especialmente em disciplinas fundamentais como língua portuguesa e matemática, turmas mais homogêneas podem trazer melhores resultados
- Personalizar estratégias: Reconhecer que alunos diferentes podem se beneficiar de abordagens diferentes
- Capacitar professores: Fornecer formação sobre como trabalhar efetivamente com turmas de diferentes composições
- Monitorar resultados: Estabelecer sistemas de avaliação que permitam verificar se as estratégias escolhidas estão funcionando
Pontos-chave para lembrar:
- ✓ Turmas heterogêneas beneficiam mais os alunos que já têm bom desempenho
- ✓ Alunos com dificuldades aprendem mais em turmas homogêneas, com colegas em nível semelhante
- ✓ Agrupar por nível facilita o planejamento e a execução das aulas
- ✓ Ideias que parecem bonitas nem sempre geram os melhores resultados educacionais
- ✓ Decisões sobre organização escolar devem ser baseadas em evidências científicas
- ✓ O que funciona para um grupo de alunos pode não funcionar para outro
- ✓ Avaliar resultados continuamente é essencial para melhorar a aprendizagem
A mensagem principal é clara: não existe uma fórmula única para todas as escolas e todos os alunos. O importante é conhecer as evidências, testar abordagens diferentes e, principalmente, monitorar os resultados para garantir que todos os alunos, especialmente aqueles com mais dificuldades, tenham a oportunidade de aprender e progredir.

Américo é doutor em educação pela Johns Hopkins University. Pesquisador em educação, fundou a Escribo onde trabalha com as escolas para fortalecer o aprendizado das crianças.
Comentários