Sua escola alimenta ou prejudica?
Um projeto de lei em discussão propõe proibir a venda de alimentos nocivos nas escolas de educação infantil e ensino fundamental. Este artigo apresenta por que essa medida é fundamental para o desenvolvimento cognitivo, físico e emocional das crianças, e oferece um checklist prático para gestores escolares implementarem uma alimentação verdadeiramente saudável em suas instituições.
O problema que suas decisões alimentares criam
A alimentação oferecida dentro das escolas impacta diretamente o desenvolvimento cerebral, cognitivo, emocional, motor e físico das crianças. Quando permitimos ou oferecemos alimentos ultraprocessados, ricos em carboidratos refinados, corantes e substâncias nocivas, comprometemos três pilares fundamentais:
Primeiro: A saúde imediata e futura das crianças.
Segundo: O desenvolvimento adequado de suas capacidades físicas e cognitivas.
Terceiro: A capacidade de aprendizado e atenção em sala de aula.
Muitas escolas ainda vendem biscoitos recheados, bombons, refrigerantes e salgadinhos. Algumas redes de ensino compram esses produtos para a merenda escolar. Essa prática precisa ser revista urgentemente.
Por que a legislação federal deve interferir
Existe um argumento de que legislação federal não deveria interferir na operação de escolas privadas ou na gestão municipal e estadual da educação. Porém, quando se trata de saúde e desenvolvimento infantil, essa interferência é necessária e justificada.
A ciência é clara: alimentos ultraprocessados prejudicam o desenvolvimento das crianças. Não se trata de opinião pedagógica ou preferência metodológica. São evidências científicas robustas sobre nutrição e desenvolvimento infantil.
Proteger as crianças de alimentos nocivos durante o período escolar é responsabilidade coletiva, que transcende a autonomia administrativa de cada instituição.
Checklist para alimentação saudável na sua escola
Como gestor escolar ou secretário de educação, você pode implementar mudanças imediatas. Utilize este checklist como guia de ação:
1. Auditoria completa dos alimentos disponíveis
Faça um levantamento de todos os alimentos vendidos na cantina, oferecidos na merenda e permitidos dentro da escola. Identifique ultraprocessados, produtos com corantes artificiais, excesso de açúcar e sódio.
2. Proibição progressiva de alimentos nocivos
Estabeleça um cronograma para eliminar refrigerantes, biscoitos recheados, salgadinhos industrializados, bombons e produtos similares. Comece pelos mais prejudiciais e avance progressivamente.
3. Revisão dos contratos de merenda
Se sua escola compra merenda de fornecedores externos, revise os contratos. Exija cardápios baseados em alimentos naturais, com alta quantidade de proteínas e carboidratos saudáveis de vegetais e frutas.
4. Capacitação da equipe da cantina
Treine a equipe responsável pela alimentação sobre os impactos da nutrição no desenvolvimento infantil e no aprendizado. Eles precisam entender o “porquê” das mudanças.
5. Educação alimentar para famílias
Promova reuniões e materiais educativos explicando às famílias a relação entre alimentação, desenvolvimento cognitivo e aprendizado. Antecipe possíveis resistências com informação científica.
6. Alternativas saudáveis e atrativas
Substitua os ultraprocessados por opções saudáveis e saborosas: frutas frescas e secas, oleaginosas, sanduíches naturais, sucos integrais, bolos caseiros com ingredientes naturais, iogurtes sem corantes.
7. Política escolar de alimentação documentada
Crie um documento oficial estabelecendo a política alimentar da escola. Inclua os alimentos proibidos, os incentivados e a justificativa científica. Compartilhe com toda a comunidade escolar.
8. Monitoramento e ajustes
Acompanhe os resultados: aceitação das crianças, feedback das famílias, impactos observados em atenção e comportamento. Ajuste a estratégia conforme necessário.
A conexão entre alimentação e aprendizado
O cérebro em desenvolvimento precisa de nutrientes específicos para formar conexões neurais adequadas. Carboidratos refinados e açúcares causam picos de glicemia seguidos de quedas bruscas, prejudicando a concentração.
Corantes artificiais e aditivos químicos têm sido associados a problemas de atenção e hiperatividade. Proteínas são fundamentais para a produção de neurotransmissores essenciais ao aprendizado.
Quando oferecemos carboidratos saudáveis de vegetais e frutas, junto com proteínas de qualidade, fornecemos ao cérebro infantil exatamente o que ele precisa para aprender de forma eficaz.
Sua escola não pode ignorar essa conexão direta entre o que as crianças comem e o quanto elas aprendem.
Além da proibição: a compra consciente
Proibir a venda de alimentos nocivos é essencial, mas insuficiente. As secretarias de educação e escolas privadas precisam também parar de comprar porcarias para a merenda escolar.
Muitas instituições públicas adquirem produtos ultraprocessados por serem mais baratos ou terem logística facilitada. Essa escolha tem custo altíssimo no desenvolvimento das crianças.
Investir em alimentação de qualidade é investir diretamente em aprendizado, desenvolvimento cognitivo e saúde futura. O retorno sobre esse investimento aparece em crianças mais atentas, saudáveis e capazes de aprender.
Transformando evidências em decisões
A ciência da nutrição infantil produziu evidências robustas nas últimas décadas. Pesquisas em neurociência e psicologia cognitiva demonstram inequivocamente os impactos da alimentação no desenvolvimento cerebral.
Como gestores educacionais, precisamos transformar essas evidências científicas em decisões práticas dentro de nossas escolas. Não podemos ignorar o conhecimento disponível.
Uma escola comprometida com aprendizado de qualidade precisa estar comprometida também com alimentação de qualidade. As duas coisas são inseparáveis.
Pontos-Chave
• Alimentação escolar impacta diretamente desenvolvimento cognitivo e aprendizado: Alimentos ultraprocessados prejudicam saúde, desenvolvimento e capacidade de aprender.
• Legislação federal é necessária: Proteger crianças de alimentos nocivos transcende autonomia administrativa de instituições individuais.
• Proibir a venda não basta: Escolas e secretarias também precisam parar de comprar alimentos prejudiciais para a merenda.
• Implementação prática é possível: Use o checklist de 8 passos para transformar a alimentação na sua escola progressivamente.
• Priorize proteínas e carboidratos saudáveis: Ofereça alimentos naturais, vegetais, frutas e proteínas de qualidade.
• Educação da comunidade escolar é fundamental: Famílias e equipe precisam entender a conexão entre alimentação e aprendizado.
• Decisões baseadas em evidências: Neurociência e psicologia cognitiva fornecem orientações claras sobre nutrição infantil.
• Investimento com retorno garantido: Alimentação de qualidade gera crianças mais atentas, saudáveis e capazes de aprender melhor.

Américo é doutor em educação pela Johns Hopkins University. Pesquisador em educação, fundou a Escribo onde trabalha com as escolas para fortalecer o aprendizado das crianças.
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