Como o cérebro aprende a ler e escrever e por que isso importa para minha escola?
Se você é professora, gestora escolar ou trabalha na área da educação, provavelmente já se perguntou: o que realmente acontece no cérebro de uma criança quando ela aprende a ler e escrever? E mais importante: como esse conhecimento pode melhorar as práticas na minha sala de aula?
A neurociência tem respostas surpreendentes para essas perguntas. E não estamos falando de teorias distantes da realidade escolar. Estamos falando de conhecimento prático que pode transformar a forma como ensinamos.
Por que professoras precisam entender como funciona o cérebro?
O neurocientista francês Stanislas Dehaene, especialista em neurociência cognitiva, faz uma provocação importante:
“É uma pena que as professoras saibam mais sobre como funciona o motor do carro delas do que sobre o cérebro das crianças que elas ensinam.”
Parece forte, mas faz todo sentido. Para intervir em qualquer sistema, precisamos conhecê-lo bem. Se empoderarmos as professoras com conhecimento sobre plasticidade cerebral e sobre como as crianças realmente aprendem, teremos melhores práticas nas salas de aula.
A neurociência cognitiva já sabe muito sobre temas essenciais para a educação:
- Competências da criança pequena (visão, audição, linguagem)
- Como acontece o aprendizado
- A função da atenção
- O papel das recompensas
- A importância do sono para consolidar o aprendizado
- Como o conhecimento explícito se transforma em implícito
Todos esses tópicos são absolutamente relevantes para o dia a dia da escola.
O que acontece no cérebro quando aprendemos a ler?
Vamos ao que interessa: como o cérebro processa a leitura?
Antes de aprender a ler, qualquer texto é apenas um monte de rabiscos sem sentido para uma criança. Mas depois da alfabetização, algo mágico acontece: ela pode conversar com pessoas que já morreram, pode escutar com os olhos, pode acessar pensamentos escritos há milhares de anos.
Como diz Abraham Lincoln: a escrita é “a grande invenção do mundo”.
O caminho da palavra no cérebro
Quando você lê uma palavra, acontece o seguinte no seu cérebro:
- A informação visual entra pelo polo occipital — a parte de trás do cérebro, responsável pela visão
- Move-se para áreas ventrais — onde o reconhecimento visual se torna mais especializado
- Explode no hemisfério esquerdo — ativando uma rede distribuída de áreas cerebrais
Esse processo é extremamente rápido e envolve várias regiões trabalhando em conjunto.
A “caixa de letras” do cérebro
Uma descoberta importante da neurociência é a existência de uma região cerebral especializada no reconhecimento de letras e palavras escritas. O neurocientista Dehaene chama essa área de “caixa de letras cerebral”.
É nessa região que fica armazenado todo o nosso conhecimento sobre as letras e como elas se combinam em palavras.
Dessa “caixa”, saem duas redes neurais principais:
- Uma rede que processa o significado das palavras
- Outra que processa a pronúncia e articulação das palavras
Aprender a ler é criar conexões entre sistemas que já existem
Aqui está o ponto mais importante para professoras e gestoras escolares entenderem:
Aprender a ler NÃO é criar algo totalmente novo no cérebro.
É criar uma conexão, uma ponte entre dois sistemas que já existem:
- O sistema visual (que já processa imagens)
- O sistema de linguagem falada (que já processa sons e significados)
Quando a criança chega à escola para aprender a ler, ela já possui:
- Um sofisticado sistema de linguagem oral
- Um sofisticado sistema de processamento visual
O que ela precisa desenvolver é a interface entre esses dois sistemas — a tal “caixa de letras cerebral” que conecta a informação visual das letras com o sistema de linguagem falada.
O que as pesquisas com imagens cerebrais nos mostram
O laboratório do neurocientista Stanislas Dehaene, localizado ao sul de Paris, usa tecnologias avançadas para estudar o cérebro:
- Ressonância magnética funcional
- Eletroencefalograma
- Outras técnicas de imageamento cerebral
As crianças são convidadas a participar das pesquisas (e adoram! Elas se sentem como “astronautas em uma nave espacial”). Enquanto ficam no scanner, os pesquisadores podem ver em tempo real como o cérebro se comporta durante o aprendizado.
Um estudo importante publicado na revista Science, em colaboração internacional, comparou o cérebro de pessoas alfabetizadas e não alfabetizadas. Os resultados mostram claramente como a educação muda o cérebro.
Por que isso é importante para a educação?
Entender como o cérebro aprende a ler traz benefícios concretos para a prática pedagógica:
1. Melhores práticas em sala de aula
Quando professoras entendem que aprender a ler é criar conexões entre sistemas visuais e de linguagem falada, elas podem:
- Valorizar o desenvolvimento da linguagem oral antes da alfabetização
- Trabalhar consciência fonológica de forma mais intencional
- Compreender por que algumas crianças têm mais dificuldade (problemas na criação dessas conexões)
2. Avaliação do progresso educacional
A ciência cognitiva oferece ferramentas para:
- Medir com mais precisão o progresso das crianças
- Comparar diferentes métodos de ensino
- Quantificar os efeitos de intervenções pedagógicas no comportamento e no cérebro
3. Desenvolvimento de materiais e currículos
A neurociência pode contribuir para:
- Criar dispositivos de ensino mais eficazes
- Desenvolver aplicativos educacionais baseados em evidências
- Estruturar currículos alinhados com o funcionamento cerebral
Pontos-chave para levar para sua escola
Aqui estão os principais aprendizados deste artigo que você pode compartilhar com sua equipe:
- O cérebro da criança é plástico — ele muda com a educação, e podemos ver essas mudanças em imagens cerebrais
- Aprender a ler é conectar sistemas — não é criar algo do zero, mas criar uma ponte entre visão e linguagem oral
- A linguagem oral é a base — as áreas cerebrais de processamento da fala já existem em bebês de poucos meses
- Existe uma “caixa de letras” no cérebro — uma área especializada que se desenvolve com a alfabetização
- Professoras precisam de formação em neurociência — conhecer como funciona o cérebro melhora as práticas pedagógicas
- A experimentação é essencial — precisamos testar e comparar métodos de ensino com base em evidências científicas
Conclusão: neurociência e pedagogia devem caminhar juntas
A mensagem é clara: não dá mais para pensar em educação sem pensar em como o cérebro funciona.
Isso não significa que vamos transformar professoras em neurocientistas. Significa que o conhecimento sobre plasticidade cerebral, atenção, memória e aprendizagem deve fazer parte da formação docente — tanto inicial quanto continuada.
Quando unimos pedagogia e neurociência, criamos uma educação mais eficaz, mais humana e mais alinhada com o que sabemos sobre como as crianças realmente aprendem.
E você, já parou para pensar em como esse conhecimento pode transformar a prática na sua escola?

Américo é doutor em educação pela Johns Hopkins University. Pesquisador em educação, fundou a Escribo onde trabalha com as escolas para fortalecer o aprendizado das crianças.
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